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Entrevista ao site Barão
em Revista, sexta-feira,
20 de fevereiro de 2004
A
pintura é o meu trabalho
Entrevista com o artista plástico Roberto Rossi
Duas crianças conversam e uma pergunta
à outra: "O que faz seu pai? O amigo responde: Desenha,
pinta... Volta ao interlocutor: E ele não trabalha?".
Isso pode parecer engraçado, porém, é mais
normal do que se possa imaginar, fruto da ausência de informação
e de cultura (algo cultivado).
No entanto, a arte está presente no cotidiano, embora o cidadão
comum não perceba e não disponha de meios para conhecê-la
e apreciá-la. Para o artista plástico Roberto Rossi,
a introdução dos primórdios das artes plásticas
na escola é fundamental para que a criança cresça
acostumada com o meio artístico, seja ele qual for.
Paulistano e publicitário por mais de 27 anos, Roberto Rossi
é artista autodidata, sendo que a arte manifesta-se em sua
vida desde a infância. Ele inicia sua vida profissional, em
1971, na mais conceituada editora de livros jurídicos na
época, como revisor. Ainda um garoto de 16 anos, a alma do
artista adquire uma formação riquíssima: a
convivência com textos e autores muito diferentes, a linguagem
acadêmica, erudita etc. Essa profissão quase permitiria
que, ainda muito jovem, Roberto Rossi pudesse obter o seu registro
de jornalista profissional, não fosse a regulamentação
da profissão. A ligação da editora com a gráfica,
fez com que o artista migrasse para as artes gráficas. De
1976 a 1988, Roberto trabalhou uma conhecida agência, o que
lhe permitiu conviver com o melhores profissionais de criação
da época e conhecer, em detalhes, técnicas de fotografia,
laboratório, estúdio, direção de arte,
redação e a criação em áreas
como propaganda, merchandising e design.
A partir de 1988, Roberto Rossi passa a ter seu próprio escritório
de comunicação e começa a se dedicar mais intensivamente
à pintura, que hoje é o seu trabalho. Em 1997 realiza
sua primeira, praticamente uma imposição dos amigos.
Desde então, outras oportunidades surgiram e o trabalho do
artista torna-se conhecido também internacionalmente, bem
como a exposição realizada em Washington, nos EUA
(www.absolutearts.com/portfolios/r/robertorossi). O artista tem
recebido constantes convites para novas exposições
internacionais, como Córsega, Barcelona e França,
porém, ele aguarda possíveis patrocinadores.
A
técnica básica utilizada por ele é a acrílica,
mas a utilização de técnica mista, bem como
a utilização de outros materiais também compõe
a sua arte. Sendo autodidata, o uso de diversos materiais é
algo certo. O resultado é uma obra com cores muito vivas,
em geral, retratando a natureza, especialmente as frutas. Segundo
ele, a diversidade de cores na natureza, é uma característica
brasileira.
Em entrevista, Roberto Rossi comenta sobre a necessidade de difusão
das artes para uma maior fatia da população e também
da importância das associações e sindicatos.
Barão em Revista:
Na
sua opinião, como anda o mercado de artes plásticas
no Brasil? Há alguma tendência a melhorar?
Roberto
Rossi:
O
mercado anda parado. Surpreendentemente vemos milagres como tantos
outros. E também os otimistas. O principal mesmo, em todo
este país, é que as pessoas vejam a arte de maneira
séria, reconheçam-na como uma representante da cultura
e da expressão de um povo e de um país. Dêem-lhe
o devido valor, percebendo que é um investimento. E investimento
sério. Talvez devessem ler a história da criação
da National Gallery, em Washington, afinal, ninguém é
eterno, a arte sim. Vamos eternizar os doadores de coleções,
vamos tomar atitudes corajosas. A tendência à melhora
depende muito mais que esses colecionadores, investidores, bancos,
empresas em geral identifiquem aí um investimento realmente
rentável, uma moeda internacional. Somente respeitando os
artistas e sua arte é que teremos um novo identificador para
a nossa cultura e uma moeda internacional de troca. Acredito que
o Brasil mereça um olhar mais sério sobre esta arte
que produz, abrindo o leque de artistas destacados, e recebendo
os novos de maneira digna. Precisamos pensar no mercado brasileiro
de arte produzida aqui. Senão, a boa arte irá embora
também.
B.
R. De acordo com o release
no seu site, você mantém uma posição
também política enquanto artista, uma vez que é
filiado ao SINAPESP e ao Comitê Nacional. Como funcionam essas
entidades no campo das artes? Em geral, qual é o índice
de participação dos artistas?
Roberto:
Sou filiado ao SINAPESP - Sindicato dos
Artistas Plásticos do Estado de São Paulo, que por
sua vez é vinculado ao Comitê Nacional Brasileiro da
AIAP/UNESCO, Associação Internacional de Artes Plásticas.
O artista imagina sempre que estas entidades possam chegar a fazer
algo com e para a classe. Imaginamos chegar a poder ter, um dia,
talvez, um fundo como o americano para apoio ao artista. Mas tudo
isto, me parece, está bem longe de acontecer aqui. É
importante que se tenha uma entidade representativa, porque aqui
no Brasil as caminhadas são feitas isoladamente ou em pequenos
grupos dominantes. No meu caso, a caminhada é continuamente
solitária. Acredito, por exemplo, que a AUTVIS - Associação
Brasileira dos Direitos de Autores Visuais (www.autvis.com.br),
tenha muita coisa a oferecer, diferentemente de um sindicato, mas
tão presente e diretamente ligada à defesa do direito
do autor, internacionalmente, já que o artista também
vive dificuldades em ter/manter estruturas que o atendam em tantas
áreas vinculadas à documentação, orientação,
literatura legal, comercialização, utilização
de imagem. A presença da AUTVIS, hoje, é um grande
presente aos criadores de artes visuais.
B.
R. Embora o cidadão
comum não perceba, a arte está presente em seu cotidiano.
De que forma você acha que a "arte elitizada", que
fica restrita a uma determinada fatia da sociedade, pode ser disseminada
a um público maior?
Roberto:
Você tem toda a razão quando
diz que a arte está presente no cotidiano. Precisamos de
orientação a respeito delas. Sem formar especificamente
a cultura de arte nas escolas, dificilmente você irá
desenvolver a curiosidade, o olhar para o belo e o estético,
ou inocular no observador algo que lhe arranque da mesmice e do
comum. Afinal, quantas obras estão aqui e ali, e nenhuma
explicação. Quantas pessoas passam diariamente por
ruas, tendo contato com obras, monumentos, esculturas, e nunca pararam
para observar aquilo. Isto faz parte da educação.
Quando me pergunta sobre a arte elitizada, tem que ser mostrada
também. Explicada como toda e qualquer arte, afinal uma minoria
poderia falar sobre ela. Talvez assim consigamos desenvolver um
mercado mais sério. Quanto à divulgação:
eventos! Isto a propaganda me ensinou. Como artista, sinto que a
grande divisão entre arte e povo está na divulgação
e na educação. Temos que ensinar crianças a
valorizarem a arte, aprender a pensar em investimento, não
existe outra maneira. Convencer as pessoas a conhecerem e visitarem
normalmente as galerias, elas nunca estão nos roteiros culturais
quando não apresentam exposições específicas.
Acredito nas mostras, acredito nos centros de cultura, acredito
na divulgação. E, novamente lembro: o artista não
consegue pagar ou fazer tudo sozinho, sem apoio de empresas que
podem destinar um volume de verba que lhes trará mais que
o retorno imaginado. Isto eu posso afirmar, sejam livros, catálogos,
exposições, divulgação do trabalho do
artista, de editoras realmente interessadas, que busquem ajudar
o criador, até os admirados e respeitados patrocinadores.
Tendo mais boas idéias? Coloquem para funcionar!
B. R. Qual
foi o fator principal que o levou à pintura?
Roberto:
A coragem. A pintura é um
talento inato. Algumas coisas você sabe que sabe. Muitas vezes
leva anos fora do seu caminho, tentando sobreviver. Não faz
nada mais que isso, porque de fato não sobra tempo. Fui à
pintura por ter sido ela a constante em toda a minha vida. Novamente
entramos no assunto cultural. Me lembro a história de duas
crianças conversando e uma delas pergunta à outra:
"- O que faz seu pai? O amigo responde: - Desenha, pinta...
Volta ao interlocutor: - E ele não trabalha?"
B.
R. Você já trabalhou
ou tentou trabalhar com outras técnicas, assim como outros
materiais e tendências como escultura e outros?
Roberto:
Uso acrílico.
Foi uma opção, e acabo aplicando alguma coisa de colagem.
Algum pó de mármore e outros materiais, dependendo
do momento. Até fôrma de mousse já utilizei
porque ficava ali, me olhando... Experimentei, sem a devida determinação,
alguma coisa em escultura. Hoje penso mais seriamente em produzir
gravuras. Este mercado é muito respeitado internacionalmente.
O trabalho em papel, em geral, tem um bom resultado comercial no
exterior.
B.
R. Em geral, você utiliza
bastante cor nas suas telas, qual ou quais os artistas que exerceram
maior influência na sua arte e porque a preferência
por natureza, especialmente as frutas (melancias, peras, cajus,
etc.).
Roberto:
As
cores são quase que um patrimônio nacional, coisa do
Brasil! O que vemos que vão mudando são as luzes.
Acredito que a cor pura começa aqui. A maneira de utilizar
essas cores é que causa o grande evento, porque são
a representação do olhar. Para mim isto é a
saída para o meu trabalho. É do olhar que surgem a
necessidade da reprodução, à minha maneira,
de toda essa exuberância iluminada que este país lindo
nos oferece. E foram estas cores que levaram tantos admiradores
para a minha arte, e também perceber no público estrangeiro,
que visita minhas exposições, a reação
quando está em contato com essas cores fortes. Os artistas
que se emocionam são muitos. E onde gosto de viver bons momentos,
é com Matisse, Cézanne, Picasso... Não abriria
mão de nenhum grande pintor, em detrimento de outro.
B. R. De
que forma a pintura exerce influência no seu trabalho cotidiano
(nesse caso, a publicidade)?
Roberto:
A Pintura é
o meu trabalho, ela pode influenciar muito outros trabalhos que
porventura eu desenvolva. Enfim, quando você opta pela pintura,
nota que tem um problema a resolver. Muitos pintores têm que
trabalhar em atividades que sustentem as fases ruins da pintura.
Será bom pegar algum projeto para as horas mais calmas. Claro,
há que ter cuidado: a publicidade é absorvente e vai
tentar se impor como um bom provedor. Quero continuar na pintura,
e tentar, sim, buscar na publicidade a patrocinadora, de fato, da
minha obra, conseguindo apoiadores bons, patrocinadores para que
eu consiga concretizar algumas exposições para as
quais fui convidado e ainda não consegui realizar: na Europa,
por exemplo.
B.
R. No seu site, há cartas
e bilhetes de crianças fazendo menções à
sua obra. Como se deu esse contato? Você tem preocupação
especial em apresentar seus quadros às crianças? Como
é isso?
Roberto:
Primeiro gostaria de
lembrar que 99% das crianças que me presenteiam com seus
desenhos, eu nunca vi. O contato nasceu da visita delas às
minhas exposições. Naturalmente estas crianças
vão às tardes, com seus pais, aos quais só
tenho a agradecer: Desenvolvem uma nova consciência cultural
desde muito cedo em seus filhos, algo raro e muito necessário
desde a infância. Estas obras que me presenteiam são
feitas no livro de ouro das minhas exposições, redesenhando
o que observam na minha pintura, fazendo comentários com
suas letras ainda em formação, e sempre tendo um posicionamento
muito interessante, firme, determinado e autêntico. Ali tenho
a expressão mais pura e crítica. O resultado tem sido
bom, e a crítica também, pelo que leio. Novamente
percebo que as crianças se interessam muito por esta minha
arte, pelas cores, elementos pictóricos... Quando cheguei
nos Estados Unidos, em Washington, as crianças, com meus
catálogos nas mãos faziam pinturas de melancias, flores
e me presenteavam. Outras me ofereciam um tag para a porta do hotel,
com estrelas e letras com meu nome, uma gentileza, uma alegria,
e novos amigos que se aproximaram pela arte.
Eram momentos muito agradáveis aqueles em que pude observar
a atitude das crianças com relação àquelas
imagens que estavam ali à sua frente (Neste caso, crianças
com no máximo cinco anos). Com tão boa recepção
por parte dessas crianças, e atento ao projeto de inclusão,
uma campanha constante de muitas instituições assistenciais
no Brasil, resolvi, agora em maio, na exposição que
fiz no Clube Paineiras do Morumby, em São Paulo, convidar
18 alunos da Oficina de Arte da APAE de São Paulo, com seus
desenhos de observação (retrato do amigo), desenvolvido
sob a orientação da Professora Jô Mognon. Um
trabalho belíssimo que fez muito sucesso. Essa aproximação
vem acontecendo naturalmente, e me fez voltar ainda mais atenção
a tudo o que essas crianças vêm dizendo.
B. R. Poderia
explicar melhor seu projeto de Arte Aberta? Como funciona e de que
forma este projeto contribui para democratização das
artes plásticas?
Roberto:
Esta foi a maneira que encontrei para desenvolver
uma obra esteticamente bonita, com grande extensão horizontal,
trabalhando com cores que se harmonizam ou tensionam, em 11 pêras,
um signo que gosto muito de pintar. Dessa forma, as onze podem ser
apresentadas ou comercializadas juntas ou separadas, e, assim, tornam-se
uma obra aberta, na qual mais de um colecionador tem parte de uma
mesma obra, em que cada pêra tem o seu número. A intenção
é movimentar o mercado, criar um evento, fazer uma aproximação
entre colecionadores, gerar uma crítica, e também
criar uma intimidade maior entre o público e a minha obra.
Afinal o projeto de obra aberta chama-se "As 11 peras. Onde
estão as outras 10?". Hoje estas pêras já
estão em alguns locais do Brasil, e amanhã poderão
estar também no exterior. Tento acompanhar suas andanças.
A democratização pode se dar no fato das pessoas com
a obra, conhecerem sua história. Sinceramente espero que,
em momento oportuno, alguém tente aproximar estas peças
todas, e fazer uma apresentação completa desta obra
aberta.
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